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Brasil é destaque em títulos de crédito de carbono
São Paulo, 18 de Dezembro de 2006 - Dos 434 projetos registrados, 80 estão no País, que fica atrás apenas da Índia, com 127. O Brasil é um dos destaques do mercado mundial de créditos de carbono, que movimentou cerca de US$ 22 bilhões nos nove primeiros meses do ano, mais do que o dobro dos US$ 10 bilhões negociados no ano passado, segundo dados do Banco Mundial. Os créditos de carbono são títulos que atestam que determinada quantidade de Gases de Efeito Estufa (GEE) foi retirada da atmosfera contribuindo, desta forma, para a mitigação do aquecimento global.
O país é o segundo em número de projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) registrados na Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, órgão responsável pela análise dos investimentos no âmbito do Protocolo de Kyoto. Dos 434 projetos contabilizados pela ONU até o começo de dezembro, 80 estão sendo implantados no Brasil, que fica atrás apenas da Índia, com 127 plantas. Estes projetos equivalem a 690 milhões de toneladas de carbono a menos na atmosfera terrestre até o final de 2012.
O Protocolo de Kyoto, um acordo internacional entre vários países, prevê a redução em torno de 5% das emissões de GEE com base na medição de 1990 pelos países industrializados entre 2008 e 2012. O MDL é um mecanismo de flexibilização que permite aos países desenvolvidos que não conseguirem atingir suas metas de redução a tempo comprarem créditos de carbono gerados por projetos de eficiência energética implantados em países em desenvolvimento, como uma forma de compensação.
A proximidade da entrada em vigor do primeiro período de compromisso do Protocolo de Kyoto fez crescer a movimentação em torno destes projetos. Resta saber se haverá demanda para todos os créditos de carbono previstos para chegar ao mercado nos próximos anos. A principal preocupação é com a China, um concorrente de peso na disputa pelos compradores de créditos de carbono. Como a matriz energética daquele país é praticamente toda baseada em queima de carvão - um dos combustíveis fósseis mais poluentes - qualquer investimento mais "limpo" realizado resulta em uma quantidade muito grande de créditos de carbono.
Uma das chaves para traçar a tendência deste mercado é a definição das metas de redução dos países desenvolvidos para o segundo período de compromisso de Kyoto, depois de 2012. Isto porque a previsão é de que os créditos de carbono gerados pelos projetos em andamento e que começarão a chegar ao mercado a partir de 2007 serão suficientes para atender toda a demanda já em 2009, avalia Nuno Cunha, da Ecosecurities, empresa internacional especializada no desenvolvimento de projetos.
Entre os compradores ativos de créditos de carbono estão os governos de países desenvolvidos que ratificaram o Protocolo de Kyoto - alguns chegaram a montar fundos específicos para a aquisição dos papéis.
De olho no potencial deste mercado, foram criados nos últimos anos vários fundos de investimentos privados especializados na negociação de créditos de carbono. Marco Antonio Fujihara, sócio da consultoria Totum, estima que existam hoje cerca de 200 destes fundos. "As grandes empresas, quando vão comprar carbono, evitam que seu nome apareça, preferem fazê-lo por meio dos fundos de carbono para não inflar os preços", conta. Segundo ele, 90% das compras vêm sendo feitas por meio dos fundos, principalmente pelas grandes companhias de energia elétrica dos países desenvolvidos. Segundo o especialista, muitas vezes o custo de financiar um projeto de MDL em suas subsidiárias nos países em desenvolvimento versus a quantidade de carbono a ser obtida não compensa. Assim, estas empresas preferem comprar seus créditos no mercado via fundos, por exemplo. Estão nessa situação não apenas as empresas da Europa, mas também dos Estados Unidos país que não faz parte do Protocolo de Kyoto, pois até mesmo as empresas americanas já entenderam que têm de entrar neste negócio. Vale lembrar que mais de 20 estados americanos possuem regulamentação relativa a emissões de gases de efeito estufa mais rígida que Kyoto.
"Este é um mercado muito dinâmico, a cada dia novos projetos são registrados mas não há garantia de que todos irão vingar", afirma Marcelo Theoto, sócio da consultoria Fábrica Ethica. Para ele, as metas de redução para o período posterior 2012 terão de ser mais agressivas se quisermos chegar a algum lugar na questão das mudanças climáticas.
A expectativa para o período de compromisso após 2012, e que provavelmente irá de 2013 a 2017, é que sejam definidas metas mais ambiciosas de diminuição das emissões.
Em um mercado com tantas variáveis como o de créditos de carbono, a atenção ao risco torna-se mais do que necessária e está no topo da lista de preocupações tanto de compradores quanto de vendedores. Os projetos desenvolvidos nos últimos anos no Brasil estão chegando ao ponto de maturação e vai começar o período de verificação dos créditos de carbono gerados, lembra Nuno Cunha, da Ecosecurities. "Alguns projetos brasileiros estão resultando em menos créditos de carbono do que o esperado, o que causa insegurança entre os investidores", diz.
Um dos principais riscos associados a projetos de carbono é justamente a ocorrência de erro no cálculo do volume de créditos a serem gerados. Podem ocorrer erros de metodologia (ela estar errada e não se confirmar a geração de créditos) e de performance (o projeto não gerar a quantidade de carbono prevista, por exemplo, em um aterro sanitário, chover mais que o esperado diminuindo o calor gerador do gás, receber menos lixo orgânico do que o previsto). O risco da não entrega aumenta no caso de operações financeiras montadas para a captação dos recursos destinados à instalação do projeto em troca da entrega futura dos certificados.
Novos investidores
Segundo Marco Antonio Fujihara, do Instituto Totum, a tendência agora é a entrada de investidores de private equity (participação em empresas) e capital de risco no financiamento de projetos de MDL, "pois o crédito de carbono entra como uma blindagem ao investidor, é a garantia de que terá seu investimento remunerado", diz. Para ele, que é repre-sentante na América Latina do Climate Change Portfolio, um fundo de investimento em carbono, o futuro deste mercado são os mecanismos financeiros. "A decisão não é mais tanto do industrial, mas do mercado financeiro, os créditos passam a ser parte do portfolio financeiro".
fonte:
Veículo: Gazeta Mercantil / Relatório - Pág. 4 (Denise Juliani)
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